Emancipate yourselves from mental slavery. None but ourselves can free our mind. Have no fear for atomic energy, 'cause none of them can stop the time.

Devaneio

         Trancar o dedo em uma porta dói. Ralar o joelho dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, doem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é a saudade. Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira e de uma praia da infância. Saudade do gosto de um alimento que não se encontra mais. Saudade de um aroma característico de um momento. Saudade da avó que faleceu, dos colegas do primário. Saudade de uma cidade, saudade de uma viagem. Saudades do amor que você já sentiu. Saudades da suas antigas preocupações e dos seus antigos medos.
Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa. Doem essas saudades todas. Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, da voz. Saudade da presença. Saudade de uma pessoa que se foi, ou de uma que está aqui, só que de uma forma diferente. 
        Saudade é basicamente não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma releitura mental de uma lembrança, não saber como se distrair, não saber como se concentrar, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche. Saudade é saber que você nunca mais poderá se sentir vivo como se sentiu em determinados momentos. Saudade da pessoa que você era, e mais ainda, da pessoa que você gostaria de ser. Passa o dia, passa a noite, mudo de casa, mudo de rumo, revejo meus planos, viajo para bem longe, vivo experiências incríveis… E mesmo assim, a saudade preenche o meu peito. Minha eterna saudade é incompreensível e única. Bom… É só saudade.


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